Às nove da manhã, atrasados, chegamos naquele cais velho e cheio de entulho. Ali encontramos os três paulistas que tinham nos intimado para a trip. Junto, já jogando as tralhas da galera pra dentro do barco, estava aquele indígena pançudo e seu amigo. O tal indígena morava não sei em qual ilha, não sei aonde. Morava no secret! E é pra lá que nós íamos.

texto:Roland
fotos: Cristiano & Roland
 
 
 

Com seu barco com motor de 90 HP, o índio, que chamávamos de Tití, mas o nome ninguém sabia, navegava rumo ao leste, por baías entre ilhas e costões a mar aberto. O dia estava nublado, e por algumas partes do horizonte avistávamos pancadas de chuvas escuras. Quando passávamos por uma destas tempestades nos cobríamos com uma lona velha que tinha no barco. Os dois índios não. Pareciam nem se importar com os grossos pingos na cara. Além desses dois índios estávamos em mais cinco pessoas. Eu, o Cristiano e três brazucas de Sampa que tinhamos conhecido uns dias antes. Alessandro, Pedrinho e Sérgeira.

Depois de três horas de viagem, atracamos em uma pequena baía, meio a mar aberto, meio protegida por uma ilha e uma bancada de corais. Era a vila do índio. Com uma escola, um bar em cima do mar e algumas casas. Uma delas era a casinha do Tití, que também chamava todo mundo de Tití mas não sabia o nome de ninguém. Enquanto estivéssemos ali ele ia dormir em outro lugar e ficaríamos com a casa dele.

Nos instalamos na casa e facilmente percebemos que éramos os únicos turistas do lugar. Guiados por uma calçada de cimento fomos levados meio sem entender até a prefeitura do povoado. Nos apresentaram ao prefeito, gente fina, e o mesmo nos disse que éramos os primeiros brasileiros que tinham chegado até lá. Nos disse também que não éramos brasileiros como ele imaginava. Talvez com meiões e batendo uma bola de futebol. Não resistimos a tentação de falar que um de nós era filho do Pelé.

Tínhamos ido até a prefeitura porque nos disseram que era preciso pegar uma permissão para estar ali e surfar. Não sei qual era a viadagem do lugar, mas se quiséssemos surfar, ou “correr hola”, como está escrito na permissão, precisávamos ter um papel com o carimbo do prefeito. 10 doleta cada um.

Saímos rindo da “alcadia” (prefeitura) com o papel na mão. Pegamos as pranchas, pulamos novamente no barco e depois de meia hora alucinada entre espumeiros e praias minadas de rochas (trip não indicada para donzelas), o capitão nos mandou saltar. Saltamos naquele mar azul alucinante para o surf e remamos em direção a praia. Depois o barco ia até a areia na praia vizinha, deixava um de nós para tirar fotos e ia embora. Sempre perguntávamos para a capitão se ele ia nos esperar pra voltarmos de barco, ele sempre dizia que sim, mas sempre ia embora e sumia no horizonte.

Não vou falar sobre o surf. Falar de tubos, vento terral, só nós na água, seria pura demagogia, chover no molhado. Pula.

Na praia onde rolava o surf tinha umas casas de uma pequena comunidade indígena isolada naquele paraíso, bem roots. Com umas vacas deitadas na areia e uns índios nos olhando de longe. Um dia estávamos surfando e o Cristiano estava na areia com a câmera tirando fotos. Nós quatro estavamos na água. De repente, do mar, vimos um bando de índios se aproximando e o rodeando. O Cristiano sumiu. Pensamos que ele tinha ido pro caldeirão. Mas nem saímos do mar, afinal tinha altas. Depois, quando a maré ficou cheia, saímos para a areia e o encontramos em uma sombra. Nos disse que os índios não queriam deixar ele tirar fotos do lugar, não tinha autorização para estar ali. Queriam algum documento ou alguma coisa como pagamento. O pior é que a gente tinha a tal autorização! Mas obviamente tínhamos deixado em casa. Nunca pensamos que teríamos que realmente usar aquilo. Índios marrentos, não se fazem índios como antigamente.

A volta para a vila era por terra, já que o capitão tinha se mandado. Uma horinha e meia de caminhada com o filho do Tití nos servindo de guia e rindo da nossa falta de habilidade para caminhar entre os obstáculos do caminho. Praias com palmeiras se encostando no mar, trilhas na selva, atoleiros de lama, montanhas e no fim a pequena e simpática vilinha novamente. Um prato de arroz com aipim para cada um de nós.

Entramos no barco e voltamos para a civilização num dia de sol. Na volta o capitão quase nos matou numa barberagem. O pior é que durante a trip inteira eu não confiei naquele índio maluco como capitão. E veja que passamos por condições que exigiam habilidade do boléia pra não afundar o barco. Mas graças a Jah chegamos são e salvo. As ondas que pegamos e o visual do pico vão nos deixar saudades. Foi bom conhecer enquanto o mar ainda não engoliu tudo.
Abraço pra raça, Alessandro, Sérgio e Pedrinho que nos acompanharam nessa empreitada e toda galera do Los Delfines. Valew.

 

 
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