Quando parti rumo a América Central, sabia que a diversidade deste continente é que o faz tão interessante. Mas antes de sair comendo estrada conhecendo todos os países que a viagem me permitisse, tinha um objetivo que sempre me passou pela cabeça. Viver por um período uma vida simples, longe do caos do mundo moderno, em alguma pequena vila onde todos se conhecem e as relações são mais humanas. E de preferência em um pico com altas ondas. Talvez um pouco de nostalgia do que nunca vivi, de um mundo que conheci pelas histórias contadas por meus pais e avós, antes do boom populacional do fim do século passado.
texto e fotos: Roland Roderjan
 
 
 

Chegando na Costa Rica, passei o primeiro mês viajando pra cima e pra baixo, procurando tal lugar. Playa Negra, Playa Hermosa, Dominical, Pavones e Santa Catalina no Panamá. Escolhi Pavones, primeiro pela onda que quando funciona com boas proporções fica extraterrestre, e segundo pela vila, que era ideal para viver uns meses no mais puro soul style. Muita natureza, pouca gente, um mercadinho bacana e uma mesa de ping-pong na cantina. Minha idéia de vida utópica, longe dos problemas do mundo moderno e com altas ondas rolando no quintal, se encaixava direitinho nesse "pueblo" no sul da Costa Rica.

A história de Pavones começou a apenas 40 anos atrás, quando os primeiros moradores vieram pra cá com a oferta de terras do governo costa-riquenho para povoação do sul do país. Entre eles um que ficou célebre pelas histórias daqui, Danny Folley. Esse gringo descobriu Pavones em 1974 e comprou praticamente toda a área onde hoje é a vila. Aqui ele montou uma pista de aterrissagem clandestina e fez sua base para produção e tráfico de drogas que funcionava junto com suas conexões na Colômbia, e atravessava a mercadoria diretamente para os Estados Unidos e Europa. Conta a lenda que nessa época, ele estava como segundo maior traficante de drogas do mundo, atrás apenas do emblemático Pablo Escobar, o "boss". Pintou sujeira anos mais tarde, e Danny Folley acabou preso pela polícia antidrogas norteamericana. Suas terras foram tomadas como posse pelos atuais moradores, e depois de 20 anos na cadeia, Danny está de volta como cidadão livre e quer suas terras de volta. A confusão está começando e se espera uma grande mudança em Pavones pelos próximos anos.

Além disso Pavones se manteve com um processo de desenvolvimento muito lento, a eletricidade chegou alguns anos atrás e a internet somente apareceu enquanto eu estava aqui, acabei pintando as placas da primeira lan-house de Pavones, participando da história do lugar. Em boa parte, essa bem-vinda resistência de Pavones ao progresso se deve as condições da estrada que chega até aqui. A estrada é horripilante, uma aventura a parte. Mas inevitavelmente as coisas vão mudando. Pelas vielas do pueblo já circulam gente do mundo inteiro, sendo que os "gringos" norte-americanos praticamente dominaram a área, comprando as melhores propriedades e dolarizando os preços daqui, e a exemplo do que ocorre em toda Costa Rica, a vida aqui acabou ficando muito cara. Roots, mas cara.

Alheio a tudo isso, em Pavones existe uma obra da natureza de rara perfeição. Localizada na entrada de um golfo, a famosa onda de Pavones, quando funciona com bom tamanho, se transforma na segunda maior esquerda do planeta, escorrendo por mais de 1 quilometro rente a praia, praticamente dando a volta na vila. Em algumas ondas, de tão compridas, é necessário descansar as pernas um pouco no meio da onda para poder continuar acelerando até o fim. Sua fama faz parte do dicionário de qualquer surfista no mundo e dos sonhos dos goofy-footers. A vila se transforma quando a previsão anuncia um bom swell a caminho, e do dia pra noite aparecem surfistas da Europa, Estados Unidos, Brasil, etc prontos pra correr as quilométricas ondas e desaparecer tão rápido como vieram assim que o swell acaba.

Surfei mares que nunca vou esquecer, as vezes brigando por onda no meio de uma multidão de sufistas, as vezes num final de tarde mágico só com os amigos. Surfei merrecas divertidas em uns dias e em outros me via remando desesperado pra não tomar a série gigante que vem varrendo todo mundo. Mas dropar a onda lá de trás e ir correndo toda a extensão, passando a boca do rio, passando a cantina e indo parar lá nos pescadores, é uma sensação única.

Durante o tempo que passei aqui, aluguei uma casa no meio do mato, 150 dólares mensais. O senhor que cuidava da casa se chamava Ely, e no começo se dispunha para o que eu precisava, mas depois de 4 meses já nem queria ver brasileiro em sua frente, e nos tocou da casa assim que terminou o quarto mês de aluguel. Isso porque eu cheguei sozinho, mas junto com minha partida do Brasil, dois amigos (Wilber e Tiago) saíram de lá por terra, fazendo uma peregrinação muito louca, atravessando de ônibus Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Panamá, até se juntarem a mim, iniciando o inchaço da casinha de apenas um quarto. Depois ainda vieram mais outros, e no final, 5 amigos se amontoavam pela casa que já estava em um estado de depreciação severo e avançado.

Mas durante esses 4 meses e meio que passei em Pavones fiz tudo o que queria. Com a câmera e caixa estanque que tinha comprado no Brasil comecei a trabalhar como fotógrafo aquático no pico, e além de vender várias fotos para surfistas alucinados por um recuerdo, ainda fiz amizade com a maioria dos locais, que também se amarram pelas fotos, e depois de um tempo já remava na vala como se estivesse em casa.

Tirar fotos aquáticas de surf sempre foi uma vontade minha, aqui além de servir para trazer fotos do surf para este site, ainda foi o que me sustentou durante o tempo que passei em Pavones e com certeza me ajudará muito durante o tempo que passar nesta viagem. Dá um trabalhão na verdade, perco alguns mares clássicos que poderia estar surfando, mas aqui temos que sobreviver de alguma maneira, e além da verba necessária ainda oferece um contato bom com as pessoas do lugar.

As amizades que fiz aqui também valeram o tempo que gastei, numa vila pequena como está todo mundo acaba conhecendo todo mundo, a vida passa mais devagar e acabamos percebendo coisas mais simples que na correria das metrópoles acabamos atropelando com nossas obrigações. Tudo aconteceu como foi planejado e agora é hora de partir. Meu amigo de longa data e parceiro da trip Cristiano já está em Bocas del Toro, no Panamá, onde vamos armar a próxima base. Meu outro brother Wilber vai ficar em Pavones por mais um tempo, está alugando e consertando pranchas e parece que gostou do lugar, diz ele que ali é o pico.

A caravana segue em frente. Pura Vida.

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-Do outro lado do golfo.16.08.08

-PANAMERIKAH.16.09.07

 

 
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