O nosso guia do Lonely Planet dizia que iríamos entrar no segundo país mais pobre do hemisfério ocidental (só perdendo para o Haiti). O guardinha do albergue que estávamos em Tamarindo, no norte da Costa Rica, dizia que não dava pra chegar até Popoyo, choveu sem parar nos últimos quarenta dias e a estrada estava debaixo d'água. Bem, a internet dizia que nos próximos dias iria encostar um swell de oito à onze pés, então pegamos o bumba e fomos ver de perto essa parada.

texto e fotos: Roland Roderjan
 
 
 

Nossa movimentação para a subida do Panamá até o México não foi exatamente um sucesso e estávamos com a grana bem mais curta do que planejávamos. Nosso parceiro Wilber que estava em Pavones acabou se acidentando e teve que voltar pro Brasa. A verdade é que estávamos meio de cara e não sabíamos se conseguiríamos chegar até o México do jeito que as coisas iam.

Mas que merda, alguma coisa tem que dar certo. Netuno atendeu nossas preces e mandou o swell. Não podíamos perder a oportunidade, vendemos uma prancha, se juntamos com dois argentinos gente finas e se arrancamos com tudo pra Nicarágua.

Viajem de ônibus é tudo igual por aqui, sempre é o dia inteiro. No meio do caminho tem uma fronteira pra fazer uma correria. A da Nicarágua era tranqüila até, só o câmbio de dólares para córdobas que fundiu um pouco a cuca, um dólar vale 18,50 córdobas. Pelo menos a Nicarágua devia ser barata.

Estávamos indo em direção de Popoyo, uma onda no sul da Nicarágua que começou a ser surfada a pouco tempo. Descobrimos que o nome da praia onde quebrava essa onda era Salinas e que o próximo ônibus até lá saía só no dia seguinte. Resolvemos ir com os dois argentinos até a cidade de San Juan del Sur, passar a noite antes de tocar até Popoyo. San Juan del Sur é uma cidadezinha irada. Bem tranqüila e já turística, tem seu charme e até pensamos em passar mais um dia ali, mas daí perderíamos o primeiro dia de swell. Sem chance, de manhã cedinho fomos primeiro para Rivas, onde pegamos outro ônibus até Salinas.

O motorista nos largou basicamente numa bifurcação no meio do nada e fomos andando em direção ao oeste. Já estávamos meio que discutindo a roubada que nos metemos quando apareceu um doido falando que os hotéis eram caros e longes. Nessas horas é que pensamos que Deus interfere nos nossos caminhos às vezes e dessa vez ele tinha mandado essa pessoa pra nos mostrar o caminho do pote de ouro. Falamos que estávamos sem grana e ele nos levou por um caminho no meio do mato até uma casinha de uma família. Chegou nos apresentando e falando que poderíamos ficar ali numa boa. Por nós beleza.

O Pai da família se chamava Fred e estava com esposa e duas filhas trabalhando como chacreiro numa propriedade de um canadense na beira da praia. A casa não tinha luz e a água tinha que pegar num daqueles poços clássicos com um baldinho que desce por uma corda até o fundo. Era casa só de um quarto, com uma área com umas redes do lado de fora. Nessas redes dormimos nos dias que ficamos aqui e o dinheiro que economizamos com hotel resolvemos gastar comprando comida a rodo para essa família. O canadense desgraçado deve ter muita grana, mas mesmo assim já fazem três meses que ele não paga o Fred. Eles estavam sobrevivendo só do que produziam no terreno e nossa ajuda deve ter dado um fôlego para a mesa da família. Para nós foi um sentimento muito melhor estar gastando dinheiro ajudando quem precisa do que ficar bancando grana pra quem já tem sobrando.

Sem falar que a Dona Nely, esposa do Fred, cozinhava pra nós sem parar. Intervalo do surf lá vinha ela com duas cadeiras pra gente sentar e mais dois pratos de arroz, feijão e milho. Irado. No último dia ela até pegou nossas roupas sujas para lavar. Gracias, gracias e gracias.

Agora, a parada mesmo é o seguinte: na frente desse terreno está a praia que chamam de Popoyo. Não tem nenhum morador. Diz que em 1992 veio um tsunami e varreu todas as casas da praia. Agora o “pueblo” fica uns dois kilómetros pra dentro do continente. Tá bom, e nessa praia, sem ninguém, rola altas ondas, altos tubos e um vento terral soprando direto. Esse vento terral que é a parada. Sopra de manhã, sopra de tarde, no verão e no inverno. Sopra direto, e sopra assim por causa do grande Lago Nicarágua que existe por aqui. O Lago Nicarágua é o maior lago da América Central e por causa dele não existem montanhas entre o Pacífico e o Atlântico nessa parte da Nicarágua. Sem montanhas não existem barreiras naturais para o vento, e como a pressão no Atlântico é maior que no Pacífico, o vento passa feliz da vida por aqui, da área de mais pressão para a área de menos pressão. Resultado, esse terralzão nervoso. Plim, altas ondas.

No primeiro dia foi um esquenta, umas ondas legais quebrando no beachbreak no meio da praia. No segundo dia o swell chegou. Vinham umas séries de seis ou sete ondas bem lá atrás. Cabeludas. Quadradas. Perfeitas. Não foi o maior mar da trip, mas com certeza foi o mais forte. Surfamos sempre com no máximo dez surfistas na água e sempre escolhíamos o melhor momento da maré para ir para a praia. Lá pelas nove ou dez da manhã a maré começava a encher e nos preparávamos para o dia inteiro de surf. O sol aqui pega tão pesado quanto as ondas e fizemos uma cabana com galhos na areia pra nos proteger quando não estávamos na água. Mas mesmo assim era demais, lá pelas quatro da tarde todo mundo já tinha ido embora, torrados de sol e surf.

Assim ficamos por quatro dias, com a mesma rotina de acordar, tomar um cafézão, ir ver que o vento continuava terral e que as ondas continuavam lá. Surf o dia inteiro e a noite... noite é feita pra dormir, e como o Fred dizia, dormíamos com as galinhas, assim que escurecia. Estávamos esperando o mar baixar pra ir embora, mas o danado não baixava, sempre vinha uma série grandona lá do fundo. Acabamos indo por já estar de cabeça feita de ondas, com o couro todo torrado do sol, e por achar que já estávamos abusando da Dona Nely, que na verdade estava adorando a idéia de ter visitas na casa.

Agora estou escrevendo essa matéria aqui em Manágua, uma das capitais mais violentas da América Central, esperando o ônibus da TicaBus sair as quatro da manhã, que vai nos levar direto à Tapachula, no México. Serão dois dias de viajem e infelizmente teremos que passar direto por El Salvador e Guatemala. Realmente tínhamos planos de passar por esses países, mas a grana está curta. Com o dinheiro que temos precisamos conseguir chegar até Puerto Escondido, no México, e alugar uma casa para ficar o primeiro mês. Lá vamos arranjar uns trabalhos para conseguir levantar dinheiro para continuar a trip e descansar por uns meses de tanta viajem doida. Já estamos cansados de ficar pulando de pueblo em pueblo cheio de bagagens atrás de ondas. Afinal já fazem sete meses que estamos nessa, sete meses sem saber nem o que é uma geladeira. Sabe o que é isso?

Roots. Muito roots mesmo.

 

 

 
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