Saindo de Pavones de barco, atravessando o Golfo Dulce em uma viagem de 45 minutos está o lugar que é considerado a faixa de natureza mais preservada da Costa Rica. Isso porque ali está o Parque Nacional do Corcovado, onde as araras vermelhas e azuis ainda voam em bandos e os macacos pulam de galho em galho até a areia da praia. Em baixo da água também está uma fauna riquíssima, com arraias gigantes, tartarugas centenárias e tubarões que nem quero pensar, cenário de alguns documentários da National Geographic. Só por esse fato já é justificada uma visita ao lugar, estando vivendo tão perto dali. Mas também ali existe uma onda que está sempre maior que Pavones e sem uma multidão na disputa pelas ondas.

texto e fotos: Roland Roderjan
 
 
 

Por essa onda muitos turistas atravessam o golfo pela manhã para surfar o dia inteiro e voltar ao fim da tarde. Aproveitei este fato pra fechar algumas barcas com brasileiros, argentinos, porto-riquenhos, americanos, etc para ir trabalhar, fotografando o dia de surf dos surfistas, que invariavelmente era clássico. Juntei um bom dinheiro desta forma, pois já ia com o pacote fechado e voltava com várias fotos de cada um. Assim não precisava ficar tirando fotos de todo mundo em Pavones e depois sair vendendo com o laptop na mochila, procurando surfista pela vila.

Chegando de barco já é possível avistar as direitas lambendo o costão formado por paredões rochosos que parecem ter saído do parque dos dinossauros. As pedras brancas espalhadas pela praia também contribuem para o cenário fantástico do lugar e deixam a água com uma coloração azul turquesa impressionante.

Depois de ir para esta praia algumas vezes somente a trabalho, finalmente organizamos uma viagem para curtirmos uns dias no lugar. Esperamos um bom swell encaixar no mapa e de Pavones saímos eu, meus amigos do Brasil Cristiano e Guille e o brother de portugal Diogo, que trouxe umas garrafas de vinho do porto para calientar a trip. Pedimos para o barqueiro nos deixar na areia e só voltar quatro dias depois.

Quatro dias podem se transformar em muito tempo ali, pois neste parque não existem mercados nem bares nem nada, somente alguns poucos hotéis, caríssimos. Fomos preparados para acampar na praia e tivemos que levar todas nossas comidas e providências para esses dias. Acampamos em frente ao canal de saída e entrada da onda e como não tinha mais absolutamente nada para fazer, tivemos que passar os dias inteiros surfando as boas ondas que cresciam a cada dia.

Em cima de nós, bandos de até 20 araras vermelhas se alimentavam nas gigantescas árvores que nos davam abrigo, e produziam um espetáculo com suas cores e com sua gralhação característica. Macacos negros também vinham nos visitar e produziam um grunido que mais parecia leões preparando o bote.

Ao escurecer, os trovões anunciavam mais uma noite de tempestade tropical, daquelas de molhar até a alma. Cada um se protegia como podia pois a chuva ignorava o plástico das barracas, fazendo poças dento delas e obrigando o Cristiano a ficar abraçado com o equipamento de foto e filmagem da equipe dentro da capa de chuva. Acordávamos com as roupas todas molhadas, mas ao abrir o zíper da barraca a primeira visão do dia já compensava a noite de sufoco, com as direitas abrindo perfeitas e solitárias bem em nossa frente.

Um francês desavisado que chegou um dia para acampar do nosso lado foi surfar sem analisar direito as condições e acabou abraçando a pedra que fica mais no inside da onda, que só aparece na maré seca, abrindo o nariz num acidente feio. Sem hospital por perto, o portuga teve que fazer um curativo improvisado pro francês, que teve que assistir da areia os amigos surfando pelos próximos dias o swell que continuava bombando e agradecer, pois ali um acidente destes poderia ter conseqüências bem mais graves.

A comida acabou com o último café da manhã e passar mais tempo alí não era necessário, pois já estávamos de cabeça feita. Então depois de quatro dias apareceu no horizonte o barco do nosso capitão vindo nos buscar. Pulamos para dentro da embarcação e apreciamos o caminho de volta até Pavones (que estava quebrando com aquela crowd de sempre e com menos tamanho que aqui). Valeu a trip.

 

 

 
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