Essas viagens de última hora são muito doidas, sem planejar muito e contando com a sorte para que tudo dê certo. Queríamos chegar no nosso destino no mesmo dia, mas chegamos tarde em Soná, última parada antes de Catalina, e o último ônibus do dia já tinha ido. Fazer o quê, nos instalamos nos bancos do terminal de ônibus da cidadezinha e nos acostumamos com a idéia de passar a noite ali até o primeiro ônibus do dia seguinte. No meio da noite apareceu um alemão dizendo que estava indo pra Catalina e que podíamos ir com ele. Perfeito, chegamos no mesmo dia e nos livramos de passar a noite naquele fim de mundo.
Santa Catalina é um pueblo que quase não existe, não tem nem bolacha pra comprar no mercadinho. O que tem é uma onda irada, um direitão cabuloso quebrando numa bancada de rocha vulcânica no meio de uma baía, que ajudou a colocar esse insólito destino no roteiro de surfistas viajantes da América central. Chegamos ali muito tarde, e pedimos para o alemão nos deixar na escura estrada de terra perto de um terreno que eu conhecia. Já tinha passado ali meses antes e sabia que tinha um lugar onde podíamos passar a noite sem gastar nada. Encaramos o portão de ferro fechado e consideramos as possibilidades de invadir um terreno no Panamá no meio da noite. Podíamos arranjar encrenca com algum segurança ou ser atacados por cães de guarda do terreno. Resolvemos arriscar, entramos pela cerca de arame farpado e avançamos na escuridão até uma cabana abandonada no canto do terreno. Felizmente deu tudo certo, esticamos o isolante e a capa das pranchas e dormimos sob o barulho das ondas e o teto de estrelas.
Na manhã seguinte o visual estava recompensador. A cabana fica de frente para o pico e imaginamos a força da explosão que formou aquele lugar milhares de anos atrás. Toda a baía é formada por rochas negras e afiadas, fruto da lava petrificada de algum vulcão próximo daqui. O bom é que desse evento geológico apareceu uma ponta de rochas no meio da baía, produzindo ondas perfeitas quebrando na rasa bancada de lava. Olhamos as ondas um pouco mais, juntamos nossas coisas e nos mudamos para a pousada do Ítalo, que ficava perto de onde estávamos. O Ítalo é um brasileiro lenda do pico, que se mudou pra cá faz um bocado de anos e montou uma pousada com a melhor vista da onda, agora é praticamente a embaixada dos brasileiros que passam por aqui.
Entramos pelo canal e remamos até a onda. Aliás, que remada! A onda quebra lá no meio do oceano. Haja braço. O mar estava bom, com ondas de seis pés formando uns tubos legais. Cerca de 15 surfistas compartilhavam as boas ondas, com uns locais do pico arrepiando as direitas. Tinha onda pra todo mundo e surfamos até cansar os braços. O Cristiano até encontrou as rochas no fundo e fez um corte considerável no pé, nada de anormal por aqui. Esse primeiro surf foi o melhor que fizemos aqui em Catalina, nos outros dias mesmo com um tamanho, choveu muito e o vento balançou tudo. Mas de qualquer maneira já valeu.
Na pousada estava a raça do sul. Eram mais dois curitibanos voltando do México, estão produzindo um vídeo de surf e tinham altas imagens de Puerto Escondido, dando um gostinho do que devemos encontrar mais pra frente. Também um catarina e um gaúcho esperando mais uns amigos que chegaram mais tarde. A afinidade é natural quando se encontra brasileiros em outros países, trocamos histórias e as amizades feitas criam planos de voltar a se encontrar em alguma outra parte do globo.
Aqui em Santa Catalina os preços das propriedades estão em um processo assustador. O grande problema é o lance da especulação imobiliária. Principalmente americanos e europeus estão comprando basicamente tudo aqui na América Central. Sacaram a jogada e se aproveitam da inocência da população local. Com sua grana absurda compram suas terras muito barato e depois vendem muito mais caro. Atualmente há casos em que um terreno em alguns meses passou de dois dólares por metro quadrado para até 100doleta/m². Calculou?
O que acontece com isso é que os verdadeiros moradores acabam perdendo suas propriedades, se vêem obrigados a morar mais distante da praia e muitas vezes acabam virando funcionários dos gringos em suas antigas terras por não saberem administrar seus bens. Tenho que confessar que não vejo um futuro muito animador para esses lugares por conta disso. Em Jacó na Costa Rica, por exemplo, esse problema já resultou em muita exclusão social da população local, que sem dinheiro para acompanhar os novos donos, acabam tendo que recorrer a outros meios de sobrevivência, como tráfico de drogas, prostituição e pequenos furtos. Isso pode estar acontecendo na sua praia também, se ligue!
Apesar de tudo, passar por aqui foi bom pra pegar umas ondas e ver que no caribe estamos bem, pois não está chovendo tanto como aqui no pacífico. Acreditem, aqui está chovendo pra caramba. Deixamos Santa Catalina de forma repentina novamente, com uma carona do Ítalo até Santiago e viemos para Pavones dar um abraço no Wilber. Ele vai ficar aqui mais um mês e combinamos de nos encontrar lá no México daqui uns meses, já com a firma mais organizada. Ainda vamos passar mais uma vez em Bocas del Toro para capitalizar mais uma verba de um trabalho que arranjamos por lá e depois finalmente partimos para Nicarágua. 
.:Passagens anteriores:.
-O caribe panamenho.24.09.07
-A utopia de Pavones.08.09.07
-Do outro lado do golfo.16.08.08
-PANAMERIKAH.16.09.07 |