Depois de ter levantado a grana pra pagar a passagem, encomendado duas pranchas zeradas, uma 6'1 e uma 6'6, e se despedir dos amigos, pensei em quanto tempo iria passar nessa viagem. Duas coisas eram certas: a pressa não existia e a estrada era longa.

 

texto: Roland Roderjan
fotos: Roland Roderjan e Cristiano da Luz
 
 
 

A verdade era que eu só queria me desligar um pouco dessa babilônia. Esquecer do Lula, do Bush e do extrato do banco. Iria me virar na América Central de alguma maneira, viver no meio do mato e foda-se.

E assim foi, executamos o plano e os meses iam passando, vivendo uma vida utópica, exatamente como descrevíamos anos antes entre amigos, quando relaxávamos a mente e deixávamos ela voar pelos cantos do mundo e idealizar alguma forma de paraíso.

Experimentamos a força do Oceano Pacífico, que parece ser quase uma entidade, regendo o ritmo da natureza e moldando o continente com sua insistência de milhares de anos.

Uma noite em nossa casa em Pavones, chegou um homem vindo da vila, dando um alarme de tsunami e dizendo pra evacuar para as montanhas. Descrentes, ignoramos o recado e ficamos a mercê da onda que por sorte não veio.
Meses depois fomos à Nicarágua, e conhecemos uma vila fantasma, arrasada por um outro tsunami em 1992. Quando o sujeito em nossa frente contava a história de como as duas ondas vieram varrendo a vila em um começo de noite, levando consigo sua casa e tirando a vida de um de seus filhos pequenos, aprendemos como o oceano é poderoso e quem sabe no próximo alarme de tsunami, não pensemos duas vezes antes de pegas nossas coisas e subir rumo a montanha.

Depois fomos para o Caribe. Lá a vida parecia a terra do nunca. Um arquipélago cercado de águas azul turquesa, com altas ondas indo-style (pero no mucho), e um monte de rastas dando as boas vindas a turistas do mundo inteiro, aproveitando a vida noite atrás de noite ao som do reggae mais louco que eu já escutei.

O mais tesão de tudo é ser local de um pico. De um pico internacional ainda, tesão. Quem nunca saiu de casa talvez não perceba como conhecer o lugar onde vivemos faz diferença. Conhecer as pessoas, os jeitos e mais que tudo, ser conhecido pelas pessoas. Em Bocas del Toro viramos rei, não pagávamos bera em bar nenhum e os locais passavam em nossa casa pra levar pro surf. Vira tudo família e ter sido bem recebido lá foi o que quase nos fez jogar tudo pro alto e ter ficado por lá mesmo.

Os perrengues que passamos pesava nas costas, mas as vezes penso que quem sempre viveu no luxo nunca conheceu a pureza de uma vida simples. A falta de grana nos tira um pouco da segurança e controle pleno da situação, o que no fim acaba rendendo experiências muito mais marcantes que qualquer noite em hotel 5 estrelas.

No Panamá, quando chegamos na ínfima cidade de Soná, tínhamos perdido o último ônibus que ia pra Santa Catalina e tivemos que nos acostumar com a idéia de dormir no banco duro da rodoviária. Temendo os perigos do terceiro mundo, dormi com um facão do meu lado pronto pra enfrentar qualquer bandido, mas em vez disso o que aconteceu foi que viramos atração na cidade e fomos assediados por algumas mulheres que queriam nos levar pra dormir em suas casas. Antes de que qualquer coisa acontecesse, apareceu um alemão pra dar uma carona salvadora, sei lá que fim ia levar essa história naquele fim de mundo.

No fim das contas foi um ano de viagem. Um ano de América Central. O Wilber veio rodando toda América do Sul pra depois se acidentar, ficar zaroio e voltar pro Brasil. Eu e o Tião demos mais um tempo, conhecemos Panamá, Costa Rica, Nicarágua, El Salvador, Guatemala e tomamos um toco no México. Hoje já estamos todos no Brasil, rindo das coisas que aconteceram nessa trip e certos que ainda falta muita coisa. México, pegar Puerto Escondido doze pés. Toda a imensa América do Sul. Ishh, essa trip vai ter q sair.

Mas entre outras coisas aprendi que não podemos ir contra o ritmo da Natureza, ela é quem manda. Vontade de voltar pra viver no mato, conhecendo culturas, pessoas e ondas alucinantres não falta, mas como eu disse a estrada é longa e o processo é lento. E agora é hora de trabalhar, mas a viagem continua e talvez, a grande viagem mesmo, essa nunca vai ter fim.

 

 
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